Pouca estranheza - Arley da Cruz
Arley da Cruz - 09.02.2026
Nada mais me assusta. Temos vivido um tempo em que o medo tem diminuído. Crianças ainda têm medo do escuro? Elas riem do perigo! Uma matéria do semanal Fantástico da Rede Globo do domingo (08/02) mostrou o perigo de que as crianças que jogam online correm. Maníacos de toda ordem se aproveitam dos games inocentes para tirar a inocência das crianças que ainda tem algum medo. A cada dia, as redes sociais são incrementadas com atrativos que manipulam as ideias e afastam o medo da realidade.
Mas devemos ter medo? Um pouco de medo faz bem. Temos que estranhar as coisas ao nosso redor. Não dá para ser um ser invencível. Os influencers e coaches querem mostrar que dá para sermos supra-humanos, balela pura, temos limitações aos milhões. Na maioria dos casos não teremos sucesso em nossas empreitadas. Não estou reduzindo os humanos ao meu próprio fracasso, nem pretendo arrastá-los para o mesmo buraco em que me encontro. Mas um shot de realidade é melhor do que um de Rivotril.
O estranho é natural. Um susto nos chacoalha. Quando algo inesperado nos acomete, nossas defesas corporais se afloram. O escritor e educador americano Michael Long, reflete no seu livro Dopamina: a molécula do desejo explica como domar a dopamina. Esse neurotransmissor nos faz acreditar nas falsas promessas. Estamos embriagados com a sensação de que de tudo vai se realizar. A realidade é que não vai. Ainda segundo Long, é importante o equilíbrio entre prazer e produtividade. Nessa corda bamba lá se vai a saúde emocional pras cucuias.
Um lugar de positividade tóxica é o tal grupo de WhatsApp. Todo dia tem um otimista de plantão mandando um monte de imagens e figuras de bom dia, tarde e noite, madrugada… gostaria de apreciar as mensagens e até de ler as frases errôneas e com atribuições de autoria duvidosas mas não consigo. Ignoro solenemente e sigo a vida.
Nesses pensamentos nada modestos esbarro na minha própria incoerência. Somos muito amigos. Tenho a crença de que cada qual com seu cada um. Não escrevo para menoscabar de outrem. Mas algumas palavras de alerta há de porvir. Na positividade e busca por objetivos sou a favor de que é cabível e possível. Não precisamos extrapolar a realidade. D2 disse: ‘tem dia que dá e dia que não dá’. Na busca pelos dias que vão dar certo encontraremos centenas de dias que nada vai funcionar da maneira que gostaríamos. Mesmo assim, o mundo vai dar seus giros e nós seríamos mais felizes se estranhássemos o que aconteceu, que o medo é normal. Belchior cantou: ‘eu tenho medo e medo está por fora, o medo está por dentro do meu coração’. Que o medo do porvir e a estranheza do dia a dia nos mantenha com os dois pés no chão, a realidade da vida exige isso de nós.

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